quinta-feira, 24 de maio de 2012

Poema Desordenado

Rosas que outrora caíam do firmamento,
Recolhem os espinhos e acariciam minha pele.
E velejam entre o rio de lágrimas
Que me afoguei antes de derrama-lo.

Velo os meus desejos.
As palavras me tocam, provocam e se vão.
Fico eu no escuro de mim
Que emana do cheiro de coisa alguma.

(Lara Carraro)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Eu vi teu nome pintado na parede

A poesia que sai da maré toma conta da cidade.
Trajo-me com a rua sem curva.
E como me cai bem!
Como uma lua, amor! Como uma uva!

Vejo teu nome pintado numa parede velha.
Certo que o cansaço me deixa abobada,
Mas o vermelho sangue que quase me acena
Fala muito mais de tudo que eu nunca ouvi.

Talvez, por tamanha indelicadeza, tua moça não o tenha desenhado,
Mas um recifense qualquer em pleno devaneio.
Um qualquer, disse eu? Mas que loucura!
Será o mesmo que o escrevera em meu corpo?

Ah, mas não me engana.
Quem sabe pinta-lo melhor do que eu
Nesse corpo coberto de alma?
Isso mesmo. Você. Não tem saída.

(Lara Carraro)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Como estar sozinha sempre com a solidão?


O íntimo está pronto.
Vem uma saudade dos pingos de chuva beijando os vidros.
Bem de leve.
Onde encostar a cabeça senão nos lençóis retorcidos?
(Silêncio)

Disfarço-me forçadamente
Para que talvez essa poeira fique encrunhada.
E que eu seja a água que cai dos meus olhos
Virando lama a escorrer pelo teu corpo.

Chega o frio, felizmente.
E pior que ladainhas, desce uma voz pela minha cabeça.
Me consome! Ai, mas me mata!
Sinto meus olhos atirarem fogo na cama.
(Barulho)

Lembro de você abrindo a porta,
Não me contenho.
Como estar sozinha sempre com a solidão?
(Silêncio)
Melhor sentir as noites. E tem coisa mais linda?

(Lara Carraro)



(Foto: Pintura de Jean Jacques Henner)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

TransPIRANDO Saudade.



Peço que me perdoe, sinceramente.
Sim, porque existe um embaraço entre nós.
E eu que te escrevo como quem desiste da vida
Rogo para que tu não desistas de mim.

Engano-me, porque quero te convencer.
E porque há na ilusão uma leveza sublime.
Diz-me então pra onde ir, amor
Se o vento segue esse caminho desarranjado.

E nunca mais te pedirei silêncio.
Quero que deites em mim e libertes tua poesia.
Derrama teu peso, expira o pecado do teu ar
E os transformarei em serenos.

Profere esse teu desejo
Porque já não enxergo mais o caminho.
Porque eu decifrei teu olhar, amor
Mas sem tua voz eu não vivo.

(Lara Carraro)




(Foto: Desenho de Francine Van Hove)

segunda-feira, 19 de março de 2012

A Meu Homero.

Escrevo-te, pequeno, porque sinto saudade e porque te gosto. Tanto.
Os desabafos contigo tornam-se flores.
Nosso fogo, nossos amores perdidos. Teus poemas quentes, meus poemas mortos e frios.
E os lixos que passaram por nós? Verdadeiras obras de arte! Vida!
Que feio, não acha?
E lembro também, naquela tarde minha sanidade passava por longe. Novidade!
Me pergunto se é sempre assim.

Outra vez penso que a gente se conhece há tanto tempo.
E quem sabe, não é verdade?
Ninguém explica. Ninguém fala. Ninguém saberá.
E tu és, meu amigo, meu Tom, meu Homero.

(De mim mesma para Thomaz)

domingo, 18 de março de 2012

Sentimentalismo Imaginário.


A ilusão da noite passada não me deixa dormir.
E a vida ainda me importa porque as tardes também existem.
Os sinos não vão tocar,
E teu calor é um veneno longínquo e delicioso.

Minha paz se perde pelas risadas que flutuam,
Pelo silêncio que se profere.
Se perde pelas palavras indiscretas que soam com calma
E terminam dizendo, ajoelhando-se por noites ternas e barulhentas.

E eu pretendo, amor, desenhar teus olhos todos os dias,
Pintar de vermelho teu corpo e o céu
Capturar teu cheiro.
Soltar o amor! Deixe que ele fique azul!

E por falta de vinho, beba minha solidão.
E por falta de inspiração, escute um blues.
E por falta de amor, me chame.
E o que poesia não disser, o escuro dirá.

(Lara Carraro)

domingo, 4 de março de 2012

Maldito Martelinho


Era madrugada.
Há duas horas fui abandonada,
Já se foi o meu benzinho.

Ah, meu neguinho!
Venha cá!
Conte-me sobre tuas noites.

E que sono!
Um sono divino
De um amor que nunca existira.

E um martelinho incoveniente batia:
“Bei, bei, bei”
Três vezes, fazendo música:
“Bei, bei, bei”.

Vamos lá, martelinho!
Três batidas!
“Bei, bei, bei”
Ah! Madiltas reticências sonoras!

(Lara Carraro)



(Foto: Desenho de Francine Van Hove)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Em tempos de outrora

Dentro de mim há uma saudade que veio do princípio.
Estranheza minha, mas sinto saudade de não existir,
Dos tempos em que o nada tinha nome próprio
E que a beleza se configurava num corpo vazio.

De nada valeria chorar!
No escuro a minha loucura seria silenciosa.
Tão grande quanto uma vontade alheia de me ter nos braços,
E simples, assim como a aranha tece seu universo.

Eu estaria entre o princípio e o fim,
Deitada num mar escuro, com todos os sabores do mundo,
Com todos os cheiros dos meus amores que viriam,
Guardados num pedaço de nada, de tudo.

Porque ser singular é simples e grandioso.
E a eternidade é tão curta quanto o segundo que acaba de passar.
O meu viver coexiste com a minha inexistência.
Existir e não existir é mais singelo do que ser quem és.

(Lara Carraro)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Palavras de ontem à noite


Quem me dera sentir a ingenuidade da água
E ir colorindo minhas mágoas.
Daí então, elas teriam a cor do teu abraço,
Teriam a cor da vida, do corpo, cansaço.

Quem me dera te encontrar na próxima curva,
Conseguir ver a eternidade nos toques dos pingos de chuva.
E te chamar pra dançar com o mundo, dançar ciranda.
Ah, meu amor, quem me dera saber com quem andas.

Quem me dera ter você de madrugada,
Ter fome a noite toda, ter cama desarrumada,
E esquecer, e nem me questionar
Por que o fato consumado pela carne a alma pagará.

Quem me dera lembrar que ainda existo,
Quem dera saber até quando resisto...
Mas da vida ainda levo a certeza
Que minha felicidade dura o tempo que disfarço minha tristeza.

(Lara Carraro)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

E ainda nos falam de LIBERDADE!

Esses "NOVOS DITADORES" são pessoas realmente intragáveis. E sempre confundem o sentido real das coisas. Não sabem passar o que aprenderam. Será que aprenderam?
Mas a verdade é que quando se tem educação e MODOS, tudo parece ser mais fácil pra quem tenta entender. E vocês, QUE SÃO PESSOAS INTELIGENTES, talvez nem saibam qual é seu verdadeiro papel na sociedade. Ou se sabem... NãO APRENDERAM A CUMPRIR.
Mandar é fácil, difícil é obedecer, não é?
E mais uma coisa: PESSOAS NÃO SÃO MAQUINAS DE DIZER SIM. E muito menos de ouvir desaforos.
Disciplina ou Ditadura? Bem, isso já não sei.

(Lara Carraro)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sem comida, Com reFRESCO.

Estou pensando você,
Mas não sinto a sua falta.
E já faz um tempo,
Mas ainda sinto um gosto de sangue na boca.

Baby, eu fui pra ti como folhas de outono...
Desdenhadas, feridas a ferro, queimadas sem fogo.
Um triste descanso dominical.
O futuro de um defunto sob sete palmos de terra.

Hoje é o amanhã do ontem,
E hoje eu não quero mais você.
Você é cinto, é laço frouxo,
A sua disciplina é piada pros marmanjos.

Baby, você fez garoa cair dos olhos alheios
E um dia vai chorar tempestade.
Vai afogar as mágoas num copo d'água
E engolir o sol sem refresco.

(Lara Carraro)

terça-feira, 28 de junho de 2011

A minha Maria

Minha nêga, meu amor,
Dizem a mim que tu encontrou a luz.
Traz minha paz, leva meu credor.
E me conduz? Me conduz?

E o menino veio, gritou assim:
-Tão com teu amor! Roubaram teu amor!
Ó, Maria! Cadê tu, Maria?
Tá em mim? Tá em mim?

Ah, minha nêga, a luz da fofoqueira já se acendeu.
Dizem que lá tem macaco, tem!
E agora foi que deu,
Vai cair água aqui também.

E tu, que vai e vem,
No meu sonho até convém,
Mas sinto falta do teu amor.
E tu Maria, cadê tu?

(Lara Carraro)

Se fosse?

Meu bem, tão fácil sería se fosse só mais um tísico...
Amargo, que nem o gosto de um vinho fodido, daqueles fodidos...
Chorando e enxugando os lacrimejos com pano de engraxate...
Me bebendo e esquecendo do centro da cidade.

O vento do dia de saturno dançara melhor que teu corpo. E alma?
Mas foi na calçada do teu suor que a palavra passou despercebida.
Na calçada cuspida, na boca lambida.
E sei lá por quem! Sei lá por quem será! Por quem?

Mas por que eu fugiría de ti?
Nem mesmo por um brucutú.
Por tu até pro cafundó de Judas eu iría,
Por tu faría de protesto a romaria.

Que seja pá, mas não seja igual.
Pois não serei fortuna, serei real.
Mas de tu não fugiría.
Por tu de ponta pé a roda pé eu vivería.


(Lara Carraro)